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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Do Haiti até aqui: Esperança é o que resta

Em dezembro de 2010 os haitianos começaram a chegar ao Brasil pelas cidades de fronteira do Acre com o Peru e a Bolívia, já passaram por aqui cerca de dois mil haitianos. O Governo do Estado prestou ajuda humanitária desde janeiro de 2011, através da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), onde trabalho.
Sou assessora de imprensa, mas com a chegada dos haitianos, a maioria dos funcionários ficaram envolvidos, todos com a missão de ajudá-los.
Em janeiro, participei do cadastro dos haitianos em Brasiléia/AC, cidade fronteiriça com a Bolívia, era lá onde os haitianos ficaram alojados até serem documentados e legalizados para poderem trabalhar. Essas informações sempre foram bem divulgadas, mas a parte dos sentimentos eu nunca li. Foi ai que decidi escrever o que senti sobre o tempo que convivi com os haitianos, foi breve, mas pude sentir a força daquelas pessoas, mesmo com toda desgraça que aconteceu em suas vidas, eles tinham nos olhos uma esperança que era quase impossível de entender.
Eu sempre conversava com eles, procurava saber sobre seus planos, seus sonhos, enfim, suas histórias. E eram muitas, alguns viram seus familiares e amigos morrerem, suas casas foram totalmente destruídas, não havia mais nada além da esperança de uma vida melhor. E é ai que o Brasil entra na história, ouviam falar que aqui teria muito emprego por causa das grandes construções para a copa, além disso, o Brasil hoje está bem visto mundialmente, já é a 6ª maior economia do mundo.
Eles sempre pediam trabalho e quase sempre era possível ajudar, já que muitas empresas e mesmo pessoas comuns ofereciam empregos. Toda vez que chegávamos à praça onde eles passavam a maior parte do tempo, sempre tinha um que também falava espanhol e se oferecia para ser nosso interprete, falávamos espanhol e ele traduzia pra o crioulo, a língua nativa do Haiti.
Tivemos vários interpretes, quando conseguiam um emprego seguiam seu novo caminho, e era assim mesmo que devia ser, todos nós da Sejudh sempre ficavamos felizes quando eles conseguiam empregos, era uma sensação muito boa conseguir ajudá-los de alguma forma. Às vezes, eles ensinavam um pouco do crioulo e tentávamos aprender em pequenas conversações.
As expressões sempre me chamavam a atenção, não havia só um olhar triste, era um olhar diferente, era um olhar de força, de vontade de vencer, de alegria por estar vivo, de poder trabalhar para garantir um futuro melhor para o que restou da família no Haiti. E quando eu via os sorrisos era fácil perceber a fé que muitos expressam sem mesmo precisar falar.
Participar de todo esse trabalho humanitário foi uma das maiores experiências que já vivi, aprendi, ensinei, escutei e muitas vezes não sabia muito o que falar. Todos aqueles rostos, as despedidas os abraços, os que dei e os vi entre eles. E quando iam embora, a felicidade com que seguravam as malas era como se fosse possível carregar dentro delas esperança.

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